Marcos Montteiro nasceu em 1973, na cidade de Registro - SP. Filho de um ferroviário e neto de um sanfoneiro, cresceu num ambiente musical e lúdico entre seus primos e tios que tocavam forró nas reuniões de família em Miracatu - SP, cidade onde ele costumava passar suas férias. Entre uma brincadeira de roda e outra, Marcos conseguiu tocar pela primneira vez tocar um instrumento musical: o triângulo. A música sempre exerceu grande fascínio no garoto que viveu a primeira fase de sua infância em Mongaguá, litoral paulista, onde era vizinho de um maestro e costumava ouví-lo tocar instrumentos de sopro. Porém, a música só foi realmente aflorar em sua personalidade quando, na adolescência, começou a encontrar nas letras do rock brasileiro dos anos 80, muitos pontos em comum com sua vida em Embu Guaçu, cidade para qual se mudou com a família devido ao trabalho de seu pai. Em meio aos trens que passavam a três metros da janela de seu quarto, Marcos Montteiro aprendeu a transformar barulho em melodia, e o tédio em poesia. (fotos da casa)
Em 1987 começa a trabalhar na feira livre, numa barraca de frutas, e com o que ganhava, pagou suas primeiras aulas de música, usando um violão infantil de um amigo seu, que o emprestava por dois dias em cada semana. .
Em 1988 entra para a Fanfarra Municipal de Embu Guaçu, (Veja a foto) na qual exercita e desenvolve intuitivamente sua percepção rítmica tocando caixa, e no meio desse ano começa a trabalhar como ajudante geral numa fábrica de instrumentos musicais, na sessão de cornetas e saxofones. Assim, seu círculo de amizades, tanto no trabalho quanto na escola, passou a ser bem musical. E foi numa conversa durante o intervalo das aulas , que um violonista amigo seu (José Arlindo), disse ao Marcos para que ele tocasse guitarra, pois ela era o instrumento ideal para pessoas agitadas. Então Marcos seguiu seus conselhos e comprou sua primeira guitarra, uma Giannini Sonic. Imediatamente começou a compor músicas punk com seu amigo Clécio Luiz, nas quais protestavam suas indignações para com o sistema. Os ensaios eram feitos com a guitarra e duas caixas de fanfarra usadas como bateria! Foi quando, no início de 1989, receberam o convite para tocarem na paróquia da cidade e, em troca, podiam usar a bateria durante a semana para ensaiarem a banda recém montada com outros dois amigos de escola, o próprio José Arlindo e o Rogério Rodrigues. A BANDA ASPA -TORTA.
Depois de vários ensaios e algumas apresentações nas festas em casas de amigos, o primeiro show oficial aconteceu no festiival municipal de conjuntos musicais, e a banda ganhou em primeiro lugar. Daí então, o grupo caiu no gosto dos jovens da cidade, que lotavam os shows e bailes nos quais a Aspa-Torta tocava. Foram bares, casas noturnas, bailes de formatura, festas de casamento e aniversário, rodeios e romarias, entre outras ocasiões. A agenda ficou mais cheia ainda quando a banda começou a acompanhar a dupla sertaneja Raul e Juan. Essa variação de estilos musicais foi fundamental para o aprendizado do grupo que adiquiriu experiência nos palcos, confirmada em 1991, quando venceu o segundo festival municipal.
Porém, a rotina de bailes afastava a banda de algo importante para a realização pessoal de Marcos Montteiro, que era compor suas próprias musicas. Com a separação da dupla Raul E Juan, a banda sentiu que era hora de encerrar suas atividades, uma vez que os integrantes já haviam realizado seus objetivos em comum, e cada um estava com novas metas pessoais a serem alcançadas. Então,nesse ano de 1992, Marcos tocou como músico free-lance acompanhando algumas duplas sertanejas e integrou uma banda que tocava numa pizzaria todos os finais de semana. Porém, isso não trazia realização pessoal para ele, que preferiu dar um tempo nos shows e foi trabalhar como escriturário numa escola pública, desse modo não dependia mais financeiramente dos shows na pizzaria e, no seu tempo livre, dedicava-se à pesquisa de sonoridades que posteriormente seriam a base de uma grande vontade sua, uma banda autoral:
Os ANIMAIS POÉTICOS. Marcos Montteiro na guitarra, Clécio Luiz na bateria, Marcos Eduardo no contrabaixo e Paulo Margo no vocal. Com essa formação criararm várias músicas que, em sua maioria, tinham as letras extraídas de textos do Paulo e, a princípio, musicadas por Marcos Montteiro e Clécio Luiz. Incluíram também no repertório, a música "Carne", parceria de ambos com o Paulinho Domingues, que abordava a trajetória marginalizada de quem vive do sexo. Tema que esse que, mesclado com drogas, desilusões e seus efeitos “pisco-colaterais”, recheavam o conteúdo do Rock quase inclassificável que os Animais Poéticos faziam. Batidas marcantes e guitarras com riffs e acordes estranhos davam uma atmosfera ímpar, alternativa, um tanto punk e altamente rockeira ao grupo. Uma gravação caseira chegou às mãos do Locutor Osmar Santos Silva, da rádio Brazil 2000 FM, em São Paulo. Ele curtiu o som e pediu para que a banda gravasse uma música em Estúdio. Então, no início de 1993 gravaram Sapatas Fenólicas, letra do Paulo e música feita pelos quatro. Ela foi executada na programação da emissora e sua aceitação abriu caminho para que, depois de uns meses, outra música fosse tocada na rádio. Sã-Insanidade, composição do Marcos e do Clécio, com letra extraída de um texto do Paulo, chamado Balada da Solidãoriedade. Essa canção entrou também na coletânea Brasil Alternativo Volume 2, com áudio masterizado e prensado nos Estados Unidos, uma vez que o CD era a grande novidade da épocae quase impossível de ser feito no Brasil. Porém, a gravação dessa música já trouxe a Participação de Rogério Rodrigues no contrabaixo, uma vez que Marcos Eduardo saíra da banda por razões pessoais. A estréia do Rogério foi, no que até então era a maior oportunidade dos Animais Poéticos, uma apresentação ao vivo no estúdio da Brasil 2000. O programa foi importantíssimo para a banda, o telefone da emissora não parou de tocar durante sua transmissão, com gente de toda parte da megalópole querendo informações sobre os caras que faziam aquele som tão estranho e tão próximo do gosto deles. O grupo passou a se apresentar em lugares importantes de São Paulo, destacando os shows no Aero-Anta, em Pinheiros.
O cenário rock and roll fervia no Brasil com o lançamento de bandas como Raimundos, Planet Hemp, da abertura do selo Banguela, porém, mesmo estando muito próximos disso, os Animais Poéticos entraram numa fase pouco produtiva desde a saída do Marcos Eduardo, compondo apenas mais duas músicas em dois anos, um distanciamento natural de caras que já não estavam mais tão em sintonia. Nesse período, já em 1995, uma vez que os "Animais" quase não se reuniam, Marcos passava os finais de semana num sítio tocando com dois amigos, Alberto Gimenez e Sidney Gomes, gravando improvisações descompromissadas e interessantes. Porém, quando os animais se reagruparam, Paulo acreditava numa mudança radical de sonoridade para alcançar um sucesso. Foram incorporados um tecladista, um naipe de sopros e um percussionista ao grupo, mas por mais correto que soasse, não fazia sentido algum para Marcos Montteiro buscar uma "fórmula" para o sucesso, uma vez que, até então, apenas se expressavam naturalmente. Então deixou os Animais Poéticos e deu seqüência na elaboração de novas músicas com Alberto e Sidney, formando "Os Convidados". Das fitas-demo gravadas por Marcos Montteiro no tempo em que tocou com os Animais Poéticos restou pouca coisa num acervo em mãos do Paulo, porém, você pode ouvir algumas aqui.
1995, o Brasil já havia conquistado o tetra, Marcos havia largado o emprego na escola, o álcool e as drogas, decidindo se dedicar exclusivamente à música e a uma vida saudável, passando horas na biblioteca municipal lendo livros que abordavam assuntos de seu interesse, como acústica, filosofia e psicologia. As reuniões com Alberto e Sidney tornaram-se mais freqüentes e o resultado das sessões de improvisação os animou a escreverem letras para esses sons, marcarem novos ensaios e convidarem a tecladista Bina Macedo para formarem "OS CONVIDADOS". A grande novidade é que nessa banda, pela primeira vez, Marcos estava cantando. O ambiente calmo do sítio onde ensaiavam se traduziu nas músicas que mesclavam influências de blues, reggae, rock n" roll e baladas progressivas. Dentre elas destacaram-se "Avesso", "O Reggae do Mar" e "Começo e Meio" que anos depois seriam gravadas pelo cantor Samuca Moretti.
"Os Convidados" tocaram em alguns eventos na periferia sul de São Paulo, Casa de cultura do M Boi Mirim, Centro cultural Monte Azul e no lendário e sempre lotado bar "Semáforo" (o menor bar do mundo). Um show sempre gerava convite para ao menos um outro show, principalmente porque a banda transmitia paz em suas canções, coisa rara entre as bandas da época. Porém, depois de três anos juntos, algumas fitas-demo gravadas, alguns integrantes da banda chegaram a conclusão de que a música era apenas um hobbie para eles, e como Marcos queria levar a sério, seugiu seu caminho e o grupo se desfez na metade de 1998.
Com o fim dos "Convidados," Marcos Montteiro decide dar um tempo com as bandas e entra numa fase de estudos e pesquisas sonoras, literárias, científicas e exotéricas, passando os dias entre livros, cadernos e instrumentos. Concentrava seus esforços no aprendizado de teoria musical, física acústica, gramática, literatua e filosofia. Saía pouco de casa, acordava cedo e escrevia o que tinha sonhado durante a noite, praticando a dissertação e interpretação dos seus próprios sonhos. Nesse período desenvolveu um método de ensino musical para violão, escrevu contos, rascunhou um romance e também um livro sobre acústica aplicada à música. A mudança de hábitos foi radical, Marcos virou vegetariano, parou de sair à noite e começou a tocar guitarra horas e horas por dia, anotando todas as suas dúvidas e respostas que encontrava tocando. Mas o excesso de horas tocando e de exercícios físicos trouxeram um enorme mal à vida de Marcos Montteiro: A tendinite.
Tempos díficeis de dor e incerteza sobre o futuro, uma vez que todas as suas aspirações musicais estavam impedidas de serem colocadas em prática. Foram mais de dois anos de tratamento até a retomada do trabalho, dessa vez, como professor de violão, guitarra, contrabaixo e teoria musical. As aulas eram na sala de sua casa. Um aluno trouxe outro que trouxe mais outro e, em menos de três meses, eram vinte novos músicos frequentando as aulas. As condições físicas e financeiras de Marcos foram evoluindo e trazendo de volta a inspiração e motivação para compor.
Em janeiro de 2001, numa praia do Rio de Janeiro, após assistir a uma noite de shows no Rock In Rio, Marcos pega uma caneta e um pedaço de papel, e rascunha duas letras que seriam o ponto de partida para uma nova e produtiva fase se sua vida...
De volta a
Embu Guaçu, surgiu um convite para tocar num Show da banda “The Plugs”, com a
qual já havia participado da gravação de algumas músicas para um CD demo. No
ensaio geral para esse show, seus pedais apresentam defeito e isso fez Marcos perceber
que era hora de voltar a investir em equipamentos, uma vez que seu braço e sua
coordenação motora estavam recuperados,
e o principal, sua motivação estava renovada.
Passado esse show, ele alugou um estúdio e gravou seis
músicas em voz e violão e começou a mostrar esse material a alguns músicos, com
o propósito de montar uma banda. Os primeiros a toparem foram Clécio Luiz, que
estava sem banda, e o Fernando, um contrabaixista proprietário de uma escola de
música em São Paulo, onde Marcos já havia estudado e trabalhado. Porém, as
coisas com o Fernando não se encaixaram muito bem, uma vez que ele estava mais
a fim de tocar covers e queria que
sua namorada, iniciante em música, fizesse parte da banda como backing vocal. A garota só fazia umas
vogais ao estilo coral de banda de baile e o Fernando tinha o hábito de
interromper os ensaios para tomar café na padaria ao lado do estúdio e, em
seguida, dava o trabalho como encerrado. Essa rotina de ensaiar menos de uma
hora e uma única vez por semana, apenas nas manhãs de domingo, longe de casa e
tendo que levar guitarras, pedais, amplificador, pratos e estantes de bateria,
fez com que Marcos e Clécio não acreditassem que o som prosperaria na
intensidade e velocidade desejada por ambos. Assim passaram a ensaiar na casa
do Clécio, apenas os dois, com uma bateria emprestada pelo Alberto Gimenez e,
em poucas semanas, já tinham músicas suficientes para um show. Então numa
atitude ousada, marcaram o show de estréia da “Dupla de Ataque”. No lugar do
contrabaixista havia um boneco no palco, um manequim desses usados para exporem
roupas em lojas. Era final de setembro de 2011, as torres gêmeas haviam caído
há poucas semanas, Marcos fez um painel com fotos recortadas de jornais e
revistas que compôs o cenário do show, que incluía também tapetes e almofadas
espalhadas pelochão do palco. Tocaram:
Priscylla, Deserto, Gênesis do Amor, Índios Urbanos, Começo e Meio,
Entregue-se, e o tema instrumental chamado “Nova Iorque em Chamas”, essa foi a
mais aplaudida.
Nos dias seguintes a esse show, os dois foram chamados à
secretaria de cultura de Embu Guaçu para tomarem broncas da então secretária de
Cultura. Ela estava descontente com a atitude de Marcos criticar o prefeito
local durante o show, dizendo-se contrário a decisão do mesmo em doar o recém
inaugurado prédio do centro cultural ao fórum de justiça. Ela pediu uma
retratação, caso contrário, os dois não tocariam mais ali. Marcos disse que não
existia só um palco no mundo e jamais retiraria o que disse, pois era sua
opinião, e artistas verdadeiros diziam o que pensavam.